Tenho pouca paciência para as mães que, à mínima oportunidade, sacam do estandarte "EU SOU MÃE", justificando com isso qualquer atitude de anulação numa auto flagelação de orgulho ímpar. Não. Há. Pachorra. Sim, somos mães. Sim, temos muito orgulho nisso. Sim, há toda uma vida para além deste facto. O amor de mãe é necessariamente altruísta. É saudável, é expectável, é fantástico que seja retribuído. No entanto há que mentalizarmo-nos de que aquelas criaturinhas maravilhosamente dependentes vão crescer, vão desvincular-se através de pequenos actos que nós vamos sentindo como punhaladas no nosso coração. Dói? Pois dói mas é mesmo assim, não há nada a fazer. Lembro-me quando o Puto mais Velho me disse que não queria que eu continuasse a assistir às aulas de judo porque enfim... tornava-se embaraçoso visto que era a única mãe. Engoli em seco, fiz o meu melhor sorriso, disse-lhe que não tinha problema nenhum, que eu precisava mesmo de ir às compras e fui para o carro chorar baba e ranho. Nesse dia senti que ia começar a perdê-lo aos pouquinhos. Como se alguma vez pudesse ter a pretensão de possuí-lo inteiramente.
Vai daí que embora esteja consciente que enquanto mãe tenho de fazer sacrifícios pelos meus filhos, sem mandar-lhos à cara já agora, estou também muito ciente de que antes de ser mãe sou mulher e que enquanto mulher tenho o direito de ser feliz e realizada. Prescindo de muita coisa pelos meus filhos mas não prescindo de mim. Em termos práticos ? Se eu posso esperar duas horas para que eles façam determinada actividade desportiva, eles também podem esperar uma hora enquanto eu me mato no ginásio. Se eu posso
receber os amigos deles, eles também podem conviver com os meus. Se eu me arrasto para festivais de Animé e demais entretenimentos nipónicos, eles também podem ir às exposições que eu gosto. Não deixo de ser quem sou porque sou mãe. Seria um peso demasiado terrível para eles suportarem pois inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, viriam as cobranças. Tenho pavor de ser uma mãe velhinha agarrada ao telefone tentando desesperadamente participar na vida do meu filho adulto. Isto tudo porque não aguento mais desculpas de mães : Não tenho tempo. Os miúdos ocupam me o tempo todo. Tenho que tratar do meu filho, levá-lo a não-sei-onde. Ginásio? Nem pensar! E as actividades deles? Ah também tenho muitas saudades dos nossos jantares mas não consigo! .... ...... Acreditem, seria óptimo que o fizessem mas eles não vão agradecer-vos. Por outro lado vão agradecer terem uma mãe mentalmente saudável. E isso só se consegue com doses calculadas de me, myself and I.